Desde os meus 15 anos, quando comecei a escrever livros, carrego uma pergunta que insiste em voltar, ano após ano: o que mais eu preciso fazer para que levem meu trabalho a sério?

Durante muito tempo, fui vista como alguém que escrevia por diversão — não por ofício. A menina que criava histórias, mundos paralelos e vivia entre a realidade e a imaginação.

Acho que, para muitos, essa menina ainda existe. E claro, ela ainda vive em mim. Mas há mais. Muito mais. Há camadas que nem sempre são vistas.

Porque, para muita gente, eu ainda sou a continuidade daquela adolescente. Não uma adulta que escreve com intenção, profundidade e escolha.

Mesmo lá em 2021, quando lancei Coração de Escritora, as pessoas ficaram admiradas. Falavam: “Uau, você publicou um livro! Que incrível!” , mas, ao abrirem a história, voltavam a me olhar com aquele mesmo olhar infantil: “olha só, ela escreveu uma historinha.”

Mas como eu disse — há muito mais nos meus livros do que apenas a história.

E é curioso, porque o que quase nunca é visível é o processo. 

Todos os meus livros — mesmo os considerados “leves” ou com temas que muitos rotulariam como “infantis” — foram feitos com seriedade. Foram obras que exigiram anos de escrita, reescrita, revisões. Dias inteiros de mergulho criativo. Ideias que surgiam em momentos inconvenientes e me faziam parar tudo para anotar. Inseguranças que me consumiam. Entregas emocionais que me esgotavam. 

Nada disso é leve.

E, ainda assim, muitas vezes é reduzido a algo simples. Para, no fim de todo esse processo de anos escrevendo, ouvir que escrevo “umas historinhas”.

Talvez exista uma expectativa silenciosa de que a seriedade só venha acompanhada de reconhecimento externo.
Uma vitrine.
Uma entrevista.
Um título.

Mas a verdade é mais desconfortável do que isso: o valor de um trabalho não deveria depender do tamanho da sua visibilidade. 

Porque o que faço nunca foi passatempo.
É ofício.
É vocação.
É luta.

E isso já deveria ser suficiente.

Porque, convenhamos, não é justo que o valor do meu trabalho dependa do tamanho da minha fama e não da profundidade do que escrevo.

Durante muito tempo, eu associei ser levada a sério a reconhecimento. A validação. A algum tipo de resposta externa.

Hoje, isso mudou.

Ser escritora nunca foi sobre provar algo para alguém. É sobre continuar — mesmo quando não há resposta.

É sobre sustentar o que você faz quando ninguém está olhando. É sobre escolher permanecer, mesmo na dúvida.

E talvez o ponto não seja até onde precisamos ir para sermos levados a sério.

Mas em que momento paramos de esperar por isso.

Porque, em algum ponto do caminho, eu entendi: eu já levo a minha escrita a sério. E isso muda tudo.

Permanecer 

Ser escritora é, acima de tudo, um exercício de permanência.

Permanecer mesmo quando não há validação.
Mesmo quando existe comparação.
Mesmo quando o reconhecimento não chega na velocidade que gostaríamos.

É sobre resistir. Resistir à invisibilidade, às críticas, ao medo de não ser boa o suficiente, à comparação com quem já chegou “lá”. E, acima de tudo, é sobre continuar mesmo quando ninguém mais parece acreditar.

E, ainda assim, continuar. 

Porque a escrita não é só o que eu faço. É o que me mantém inteira.

E talvez, em algum momento isso fique claro para outras pessoas também, que desde o início, tudo sempre foi muito mais sério do que elas imaginaram.

Mas, até lá, isso já é claro para mim.

E, hoje, isso basta.

“Uso palavras para compor meus silêncios.” — Manoel de Barros